quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Platônico


Sinval, desde gurizote, mora no Pau Fincado. Lá pras bandas de São Gabriel, de onde nunca arredou pé. Índio xucro barbaridade!
Dia destes numa bailanta no bolicho do Tio Néco, se engraçou por uma morena, linda por demais. Flor vermelha no cabelo e um belo vestido de chita, que saracoteava mais que potrilinha nova.
Sinval bebeu e dançou a noite inteira com a prenda. E quando já estava amanhecendo levou-a para dividir os pelegos. A guria se encantou com os carinhos do bugre e acabou ficando.
Passada uma semana, lá estava ela: Dando um toque feminino no velho rancho e preparando uma boa comida, enquanto Sinval ia para a lida campeira.
- Amigo Anselmo... Um índio pra ser feliz de verdade tem que ter uma chinoca carinhosa e bem prendada como esta que eu tenho.
- Faça bom proveito Sinval... Faça bom proveito!

Num lugar pequeno como aquele, noticia ruim se espalha mais que fumaça no vento:
- Mas bah, mano-velho! Não é que o Sinval amazeou-se com uma tal “mulher de penca”.
- Muito linda. Não fosse um travesti!
- Será que ele ainda não se deu conta compadre?
- Um bugre daqueles? Criados naqueles cafundós? Certamente não sabe que existe tanta sem-vergonhice. Pra ele vestiu saia é mulher!
- Temos que lhe contar a verdade.
- Eu é que não me atrevo!
- Nem eu.
- Já sei. Vamos telefonar para o Bado.
- O irmão que mora lá em Santa Maria?
- Com certeza ele saberá como proceder.

Nem bem amanheceu, lá estava o Bado batendo na porta do rancho:
- Boenas! Cadê meu irmão?
- Saiu cedinho para a lida.
- Pois te manda. Eu vou contar tudo pra ele, e conhecendo-o como eu conheço, acho que ele vai te matar.
Não precisou falar duas vezes e lá se foi a bichinha campo à fora, feito uma gazela. Desaparecendo neste mundão de meu Deus.

****

Nas rodas de chimarrão ninguém se atreve a fazer chacota do pobre Sinval. Até mesmo porque ele é homem de impor respeito:
- Bah tchê... Que vergonha! Quando eu encontrar aquele putinho por aí, quero estar com o meu facão bem afiado. Hei de cortar-lhe o couro em tirinhas bem finas para fazer um barbicacho!

Mas quando a noite chega e a lua inunda o rancho, Sinval chora de saudades de sua prenda.
Sérgio Luís da Silva Vargas

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Trabalho é trabalho!

- Moço, eu quero levar aquele fogão no crediário.
- Pois não. Um minutinho só e farei o seu cadastro.
- Nome?
- Santa Terezinha.
- Ah, sou devoto de Santa Terezinha!
- Minha mãe também era.
- Idade?
- Trinta e quatro anos.
- Profissão?
- Prostituta.
- Como?!!
- Prostituta moço!
- Mas não pode.
- Não pode o que moço?
- Não posso colocar na sua ficha que a senhora é prostituta.
- E por que não?
- É que... o nosso analista de crédito é muito chato e preconceituoso também. Ele não vai querer aprovar o seu crédito.
- Mas moço eu só quero um fogão! Você não quer me vender?
- Não é isso minha senhora. O que eu mais quero é lhe vender, mas...
- Que tal se colocássemos que a senhora é do lar?
- Do lar? Mas aí eu não terei como comprovar minha renda. Vai ficar difícil.
- É mesmo, a senhora tem razão.
- Moço eu sou prostituta. Os homens vão lá, se divertem comigo e me pagam por isso. Aí eu venho aqui e pago o teu fogão. Pronto!
- Taí!
- Taí o que moço?
- Vou colocar aqui na sua ficha que a senhora é recreacionista.
- Re... o que?
- Recreacionista.
- E vai funcionar?
- Vai sim. No máximo ele vai lhe pedir um avalista, mas vai liberar o seu crédito.
- Tá bom então, se não tem outro jeito.
........
- Moço empacota o fogão, vou leva-lo.
- Ah, ele liberou o seu crédito? E nem lhe pediu avalista?!! Não vá me dizer que ele também é devoto de Santa Terezinha?
- Quem? O seu José? Que nada. Ele já me conhece há muito tempo. É meu cliente lá no bordel.
- Muito obrigada seu moço. Bons negócios.
- Pra senhora tam... também.


Sérgio Luís da Silva Vargas

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O imóvel

Sou um sujeito extremamente realista.
Não creio que as bruxas existam. Tampouco acredito no céu e no inferno.
Um amigo meu, noutro dia, me chamou de cético. Sorri:
- Sou cético, mas não sou antisséptico! Peidei.
- Fedorento...Vai debochando, vai. Teu lugar no inferno está reservado.
Nunca fui dado a rezas e se eu depender mesmo disto, irei dialogar com o chifrudo. Certamente.
Penso que essas pessoas que crêem demais são alvos fáceis de freqüentes enganações. Há todo tipo de malandro de plantão por aí.
Um colega de trabalho certa manhã chegou radiante:
- Comprei a chave do meu apartamento.
- Outro? Que legal.
- Só que este é muito especial.
- Especial por que?
- É amplo. Todo azulejado. Lindo... Lindo mesmo!
- E quando tu te mudas?
- Ainda não... Tenho que esperar!

Semana passada quando eu folhava o jornal, vi aquele rosto estampado:
- Mas eu conheço este cara! Robelio, este aqui não é o teu pastor?
- É ele mesmo... Desgraçado!

“FALSO PASTOR É PRESO VENDENDO COBERTURAS NO CÉU”



Sérgio Luís da Silva Vargas

Lamparinas

- Ô Sandoval?
- O que é... Vivente?
- Tu sabias que Porto Alegre antigamente era iluminada com óleo de baleia?
- Que que é?
- É isso mesmo! As ruas do centro da capital tinham suas lamparinas alimentadas com azeite de baleia.
- Que coisa mais estranha. E será que clareava alguma coisa?
- Ah, isto eu não sei te dizer. Talvez fosse algo meio que lusco-fusco.
- Se bem que naquele tempo não se tinha muitas ruas iluminadas e qualquer claridade já era grande coisa.
- Pois é.
- Imagine só o fedorão que devia ser...
- Será? Nunca cheirei azeite de baleia!
- Nem eu... mas que azeite queimado fede, fede!
- Falar nisso vivente, o consumo de energia elétrica lá em casa no mês passado foi algo babilônico.
- Lá em casa não foi diferente. Gastei os tubos também, e o pior é que foi muito mal usada. Os guris ligam tudo que é lâmpada, e se enfiam debaixo do chuveiro por horas a fio, sem dó nem piedade.
- Os meus também. E a mulher que todos os dias usa aquele maldito secador de cabelos?
- Bah, secador de cabelo consome uma luz desgramada!
- E eu não sei?
- Tchê, mas sabe que tu me deste uma grande idéia?
- Que idéia Sandoval?
- Vou por lá em casa umas lamparinas.
- Não me diga que vais usar óleo de baleia também?
- É claro que não. A Sofia, minha mulher, vive me enchendo o saco e...
- E o que Sandoval?
- Pois bem. Vou unir o útil ao agradável.
- Como assim?
- Vou autorizar-la a fazer aquela droga de lipoaspiração que ela tanto quer, mas ela que me traga de volta toda a graxa que render.
- Bah! Vais ter combustível por muito tempo.


Sérgio Luís da Silva Vargas

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O lixão

Histórias de trabalho 2008 (15ª edição) Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre


Um menino garimpa o lixão.
Latas, plásticos, papéis, vidros e tudo aquilo que alguém não quis mais, para tantos vale muito.
Arqueado, o menino vai catando o que pode carregar. Sai dali o seu sustento e o de sua família. Revira o lixo em busca de algo que possa vender.
Vida dura. O lixo fede.
O menino sonha com dias melhores. Sonha com a escola. Adora a leitura. Lê tudo o que recolhe; dos rótulos das latas aos jornais imundos. Aprendeu a ler ali mesmo com um velho de barbas brancas e pegou gosto. Não teve tempo de estudar. A vida é dura. Ou estuda ou trabalha. E quem é que vai levar comida para os irmãos mais novos?
São sete ao todo. Um de cada pai. Porém, sabe-se lá por onde eles andam. O último que ali esteve, só quis saber de beber. Não durou muito. Morreu de cirrose.
A mãe do menino vive drogada. Quando está “limpa” até o ajuda, mas isto é difícil.
A vida é dura. O lixo fede. Seus irmãos têm fome.
O menino já recebeu convite para ser vapor, mas o velho de barbas brancas, que já esteve preso, disse ao menino o quanto é bom estar livre. Um homem de verdade tem que andar de cabeça erguida. O menino preferiu a dureza do lixo.
Assim como ele há tantos outros; pais de famílias, mulheres grávidas, meninas, meninos. A concorrência é grande no lixão. Um caminhão descarrega. Vem outro e mais outro. E a todo instante a correria. Tem que ser rápido.
A vida é dura. O lixo fede. Seus irmãos têm fome. Quem não corre, não come.
O menino pensa no desperdício das pessoas. Tanta coisa indo para o lixo. Semana passada encontrou um sapato quase novo que serviu para o irmão Tião.
Duas mulheres, uma gorda e outra mais baixa, se atracaram a tapas por causa de uma sombrinha. O menino sorriu. O lixão tem destas coisas.
A senhora loura há dias não aparecia, coitada, seu filho caçula morreu de leptospirose. – É! O lixo é desumano – Ele mesmo já esteve tantas vezes doente.
O menino reza. Pede pelos irmãos, pela mãe, pois ele sabe que ela é uma pessoa boa, mas que não tem forças para se libertar do vício. Pede por todos que ali buscam seu sustento.
Dia destes, num saco com cascas de batatas e frutas podres, o menino encontrou um livro de poesias. Quem poderia ter cometido tal desatino? Um livro destes! Poemas falando de um mundo dourado. E na sombra da figueira, entre um bando de urubus e o lixo, o menino sonha. Apesar de tudo, a vida é bela.



Sérgio Luís da Silva Vargas

domingo, 23 de agosto de 2009

Voyeur

Mais uma vez, Rodrigo apontou sua luneta para a janela do prédio lá adiante.
Há muito tempo é assim: Ela chega acompanhada, liga a luz e tira a roupa, sob o olhar extasiado do visitante. E são tantos. Homens novos, velhos, com barba, loiros, morenos. Homens de todos os tipos.
Suélen é linda. Loira de cabelos compridos e lisos como a seda. Pernas bem torneadas. Corpo esguio. Bundinha empinada. E aqueles seios então? Frutos maduros prontos para serem colhidos. Suelen é perfeita. Ou será que se chama Carla? Patrícia talvez? É... Suelen é melhor. Se parece mais com ela.
No quarto, pelo que ele pode ver, tem uma cama de casal com lençóis muito brancos, um ventilador no teto e num canto, uma cômoda, sobre a qual descansa um porta-retrato com a foto de uma criança e livros, muitos livros.
Rodrigo observa atento, aqueles corpos ansiosos, engalfinhando-se sobre a cama. Suelem é carinhosa. Do que será que falam? Suelem ouve e dá risadas. Ela fica mais linda ainda quando ri. Depois a luz se apaga e Rodrigo vai deitar. Amanhã é outro dia e a escola o espera. Quase sempre é assim, fica rolando na cama e só consegue dormir depois de ir ao banheiro.
- Ah, Suelem... Você me deixa louco!
Quinta-feira. Rodrigo observava as estrelas quando de repente a luz do quarto de Suelem se acendeu. Automaticamente a luneta foi desviada para lá.
- Veja só, ela está melhorando o perfil dos seus clientes. Está mais seletiva a safadinha.
O sujeito que lá estava usava um terno azul-marinho bem alinhado. Parecia ser muito mais velho do que ela. Tinha os cabelos grisalhos.
Suelem serviu-lhe um uísque, depois, pegou na cômoda uma toalha e foi tomar banho. O homem aproveitou que estava sozinho para revirar a bolsa dela. Quando voltou ao quarto, ele começou a empurra-la.
- Epa! Parecem estar discutindo.
Rodrigo percebeu então que o homem a estrangulava. Ficou apavorado. Tentou gritar, mas apenas um sussurro foi o que se ouviu. Na noite fria, o silêncio imperava. A luz se apagou.
O garoto ficou pensativo:
- O que devo fazer? Ligo para a polícia? Não! Como eu poderia explicar tudo isto. Falar para os meus pais? Também não. Meu pai certamente diria que não devo me meter na vida dos outros e minha mãe então, iria encher o meu saco, achando que ando me envolvendo com prostitutas. Melhor ficar calado e observar se Suelem reaparece amanhã.
Na sexta-feira a luz do quarto da garota não se acendeu. Rodrigo ficou preocupado e decidiu que no outro dia, bem cedo, iria ao prédio dela ver o que havia acontecido.
Acordou, bebeu um gole de café e saiu correndo, sob protestos de sua mãe. Chegando lá, avistou o rabecão do iml. Ficou nervoso.
- O que houve aí? Perguntou a um policial.
- Mataram uma garota de programas
- A Suelem?
- Você a conhecia?
- Sim... Quer dizer, não! É que...
- Conhecia ou não conhecia?
- Bem... É que...
- Espera um pouco aí guri. Vou chamar o delegado. – Doutor!

Rodrigo estremeceu. Ali estava ele, o sujeito grisalho de terno azul-marinho.

Sérgio Luis da Silva Vargas

sábado, 15 de agosto de 2009

A queda do muro

Quando derrubaram o muro, lá em Berlim, meu pai ficou muito feliz. Finalmente seus parentes, dos dois lados, iriam se reencontrar.
- Que maravilha! Já não era sem tempo. Tio Gerard poderá visitar tia Romi.
- O quê? Perguntou mamãe.
- Derrubaram o muro.
- Não fui eu! Defendeu-se Geraldo
- Ah! Não mesmo, seu cabeça de bagre?
- Claro que não. Eu só pichei.
Meu irmão era uma toupeira.
- Foi tu então! Seu merda!
- Eu sabia!
- Só fiz um protesto contra os “inperialistas americanos”.
- Geraldo seu energúmeno, antes de p e b não se usa “n”. Que anta!
- Ah, vai te catar seu intelectualzinho babaca.
- Vão parar com essas ofensas? Rechaçou mamãe. –Vocês parecem cão e gato!
- É este guri, mãe, que vive se metendo nas conversas dos outros.
- Respeito é bom e conserva os dentes... Resmunguei.
- Pai... me empresta o carro? Pediu Geraldo.
- O quê? Tu pichas o muro e ainda vem me pedir o carro? Não empresto mesmo!
- Ô mãe! Manda ele me emprestar.
- Vai Valdomiro, dê a chave pro guri. Ele tem que ir ao supermercado pra mim.
- Ta, mas só pra ir ao super, e é um pé lá e outro cá!
Meu irmão saiu sorridente. Um Maria gasolina.
- Valdirene, cadê a tua filha?
- Nossa filhinha foi dormir na casa do namorado.
- O quê? Tu estás dando muita liberdade pra esta guria.
- Valdomiro... deixa a menina! Deixa a menina! Tu tá sempre implicando com alguém.
- Sei! Ela que me apareça prenha aqui.
...

Trimmm! Triiimmm! Tocou o telefone.
- Guri atende aí!
- Já vou pai, já vou! É a dona Flora. Está dizendo que derrubaram o muro.
- Eta, mulherzinha de merda! Será que ela pensa que nesta casa não tem televisão?
- Ela disse que foi o Geraldo.
- Ele já disse que não foi ele! Que droga!
- Ta mãe, não precisa ficar braba! Desculpe dona Flora é que...
- Desliga este telefone e venha comer.
...
- Oi gente! Tudo bem com vocês?
- De onde tu estás vindo mocinha?
- Da casa do Rui.
- Rui? Não era Carlos?
- Carlos Rui, pai!
- Ah!
- Vocês viram que derrubaram o muro?
- Até tu guria? Pensa que somos todos uns tapados? Que não assistimos tv?
- O quê?! Apareceu na tv?
- É claro né!
- E o carro tá no seguro?
- Carro?! Que carro?
- O carro... O muro... Garanto que foi o Geraldo.
Papai foi até a janela:
- Filho da puta...!
- Calma Valdomiro, calma!


Sérgio Luís da Silva Vargas

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Minha sogra é um anjo

Minha sogra sofria de catalepsia.
Não queiram saber como é traumatizante uma sogra voltar do próprio enterro. Pois comigo aconteceu, e foram três vezes. Era aquele vai e volta danado. Tive que fazer um tratamento psicológico.
Na primeira vez tudo estava indo tão bem, até que no melhor da festa, a velha resolveu levantar-se. Gritaria geral:
- Seus desgraçados pensavam que iam me enterrar viva, mas não foi desta vez!
- Ah, mamãe que alegria! Minha esposa gritou feliz da vida.
- Ah, minha sogrinha que felicidade! Dizem, os amigos, que fiz a cara mais decepcionada do mundo.

Na segunda vez um dos netos passou pelo caixão e disse:
- A vovó ainda está quente!
- Será? Pensei.
Fui lá, discretamente, e diminui a temperatura do ambiente.
- Bah, mas tá frio aqui hem!
- Credo... Isto aqui parece uma geladeira!
- Não acho. Tô até com calor!
Quando parecia que ia ser desta vez, a velha levantou-se novamente do caixão, dê-lhe a espirrar.
- Mamãe que alegria! Minha esposa de novo.
- Sogrinha querida, que susto!

Na terceira vez me precavi. Fiquei o tempo todo em volta do caixão com a mão na testa da velha, segurando-a para que não levantasse.
Algumas amigas de bingo da jararaca chegaram a comentar:
- Nossa, como ele adorava esta sogra!
- É... ele é um amor!
Mas, bastou um pequeno descuido - fui atender a um telefonema, e ela pulou outra vez do caixão, espalhando flores para todos os lados com o dedo em riste apontado para mim:
- Pode tirar este sorriso da cara, pois eu voltei.
- Mamãe que alegria! Minha esposa, a única que parecia feliz de verdade no local.
- Sogrinha do meu coração, que felicidade! Disfarcei.

Ano passado ela morreu de novo. Só que desta vez, eu mesmo tomei as rédeas de tudo.
- Eu preparo o corpo da minha sogra!
- Obrigado querido!
Enchi a boca da velha de algodão, amarrei os pulsos com esparadrapo, coloquei bastante cola no fundo do caixão e pus um bilhete no bolso dela: não aceito devolução - vá que o capeta rejeite a encomenda. Só por precaução, aumentei o som ambiente da capela, para ninguém ouvir qualquer ruído.
Desta vez ela se foi mesmo.
Fiquei tão feliz com a minha empreitada, que com o dinheiro da herança, decidi montar uma empresa especializada em enterros de sogras.
- Vou fazer fortuna, a “QUE O DIABO TE CARREGUE LTDA” é o maior sucesso!


Sérgio Luís da Silva Vargas

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Exame de próstata

Os exames feitos em seu Juvêncio deixaram o médico da pequena localidade, um tanto preocupado:
- Teria que fazer um exame de toque, mas eu é que não vou enfiar o dedo no rabo deste guasca, mais grosso que tramela de rancho. Ele trata tudo à ponta de faca! Vou mandá-lo para Porto Alegre.
- Acho melhor mesmo. Disse a enfermeira.
- Seu Juvêncio, o senhor terá que ir à capital fazer mais alguns exames.
- O doutor é que sabe! É só terminar de colher meu milho que já vou.
- Isto, mas vá o mais rápido possível.
- Na semana que vem já devo estar indo doutor.
Juvêncio fez o que tinha que fazer. Vestiu a melhor pilcha, pôs na mala-de-garupa pão com salame e se mandou.
Na rodoviária pegou um taxi:
- Vamos pra onde senhor?
- Toca direto para o Hospital de Clínicas!
- O amigo veio fazer o que na capital?
- Vim fazer o exame de prósta.
- Ah, o exame de próstata!
- Esse mesmo. Vim num pé e volto noutro.
- O amigo não está receoso com o tal exame?
- E eu lá sou homem de ter medo de alguma coisa, mano-velho? Não tenho medo nem de assombração!
- Não estou falando de ter medo! Eu mesmo tenho um certo receio de fazê-lo.
- Mas o índio véio é homem ou um pé de chicória?
- Bem... É que é um tanto constrangedor e...
- Meu finado pai, que Deus o tenha, dizia-me que constrangedor é homem beijar homem. O resto...
- Acho que o amigo tem razão. Vou tratar de marcar o meu exame logo-logo.
- Pois faça isso, não deixe que o mal se alastre!
- Chegamos, Senhor!
- Muito obrigado.

Seu Juvêncio ficou aguardando na sala de espera por quase duas horas. Já estava nervoso.
- Seu Juvêncio pode entrar. Disse o médico
- Já não era sem tempo! Esperei mais que gestação de mula.
- Dispa-se e deite-se por gentileza.

Contam lá em São João da Urtiga que tiveram que chamar os brigadianos para pôr fim naquele entrevero. Era o seu Juvêncio correndo pelado pelos corredores do hospital, com um facão na mão, dando pranchaços no lombo do pobre médico:
- Vem cá, doutorzinho de merda! Vou te ensinar a respeitar um pai de família.

Sérgio Luís da Silva Vargas

Tecnologia pura

- Bom dia compadre!
- Bom dia!
- Me conta, como foi a chuva por lá?
- Bah, compadre! Foi coisa feia de mais. Muito granizo. Perdi toda minha lavoura de fumo.
- Que coisa mais triste compadre! Eu por aqui tive um prejuízo danado, perdi minha lavoura de milho e mais a granja dos frangos, que ficou toda furada. Morreram pra mais de mil pintos.
- O estrago foi muito feio, compadre...
- É! Com tanta tecnologia, e nos ainda dependendo da sorte para mantermos nossas culturas.
- E quem é que pode contra a natureza, compadre? Não viu lá nos Estados Unidos, país rico, cheio de recursos, o estrago que deu?
- O amigo tem razão, contra as forças de Deus não há tecnologia que dê jeito!
- E por falar em tecnologia, o amigo sabia que a Chiquinha, filha do compadre Anselmo, engravidou?
- Não sabia não, compadre! Mas como?! A guria não tinha nem namorado!
- E não tinha mesmo.
- Então como é que foi pegar barriga, ora?
- Compadre Anselmo me disse que foi esta tal de internet!
- Ué! Mas pode?
- Acho que sim. Esta internet é poderosa! Noutro dia ouvi no rádio que lá em São Paulo roubaram até um banco...
- Pois eu ouvi também...
- E se assaltaram um banco, como não haveriam de fazer um filho que é coisa muito mais simples?
- É compadre... Acho que é possível mesmo!
- A Maria, minha esposa, queria porque queria que eu comprasse pra nós, um destes computadores, mas acho que não vou comprá-lo não, vai que ela também engravide e nasça por lá um guri com os olhinhos puxados? Como é que eu vou explicar para os vizinhos?
- É! Vai ser difícil explicar mesmo.
- É melhor nos vivermos na ignorância do que mal falados!
- Ah, isto é verdade.
- Até mais ver, compadre!
- Até mais ver!

Sérgio Luís da Silva Vargas

Um pulo na lua

Quando Gildinha viu aquela lua bonitona no céu, decidiu:
- Vou ser astronauta!
- Ora vejam, astronauta mulher!
- Por que? Não existe?
- É claro que não!
- Pois então eu serei a primeira.
- Logo você que tem medo até de subir no telhado? Duvido que chegues à lua!
- Mas até lá eu já cresci, e gente grande não tem medo de nada!
- Ora se não tem! Mamãe tem medo de baratas...
- Ah, barata é barata!
- Pois saiba que eu ainda sou menino e já não tenho medo de nada.
- Não tem! Não tem! Tu tens medo do escuro que eu sei.
- Maninha... não é medo! Eu tenho é receio!
- Ta, e receio não é medo?
- Claro que não! Receio é receio e medo é medo.
- E o que é receio então?
- Receio é... receio é... Humm!
- Vamos diga. Não fiques aí gaguejando!
- Receio é só um medinho à toa!
- É, mas tu choras se te deixam no escuro.
- É que quando se tem receio também se chora!
- Pois eu não tenho receio e nem medo de ir á lua.
- Papai contou-me que a cadela Laika foi e não voltou mais.
- Pois eu vou à lua procurar por ela e a trarei de volta.
- Cadela idiota, tal qual as meninas. Ouvi dizer que era só ela ter apertado um botão que dizia: - voltar para casa. Te garanto que se fosse o Sultão ele não se perderia.
- O que?! Este cachorro pulguento? Se fosse ele, iria parar no sol. Viraria cachorro-quente torrado. Um baita de um bocó!
Gildinha jurou ter visto Laika pulando lá na lua.
- Tadinha, tão longe de casa!

Sérgio Luís da Silva Vargas