quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sem inflação


Quando guri eu brincava com meus irmãos de venda.

Montávamos um bolichinho ali, no fundo do quintal.

Nossa moeda era as notas velhas, desvalorizadas pela inflação.

Naquela brincadeira inocente, sem perceber, íamos tendo as primeiras noções de economia.

- Seu José me dá um quilo de feijão.

- Dá mais esta amarelinha aí. Esta aqui a inflação já comeu a metade.

E assim passávamos horas vendendo pedaços de pedra, pesando areia na balança improvisada, latas sem nada dentro. Era divertido.

Meu pai agoniado com a rapidez com que seu dinheiro perdia o valor, muitas vezes nos repassava maços e maços de notas que já não compravam mais nada, para nossa a alegria e tristeza dele é claro.

Hoje vivendo num país estabilizado percebo o sofrimento do meu pai e de tantas outras pessoas que na frente da teve ouviam: “o governo vai cortar mais um zero do Cruzeiro”.

Época de incertezas. O salário era curto para um mês tão longo.

Meu pai, coitado, tinha jornada dupla. Trabalhava em dois empregos para levar sustento a casa. E era tanto gasto! Escola, livros caros, uniformes. Não tínhamos ajuda do governo, comprávamos só o suficiente para viver.

Lá em casa pelo menos tínhamos limites. O pai e a mãe estavam sempre atentos aos desperdícios.

A gurizada hoje em dia pede, tem. Está tudo muito mais fácil.

Os pais de agora já não dão mais dinheiro sem valor para seus filhos brincarem.

Pobres meninos ricos, o jeito e se divertir com o vídeo game mesmo.


Sérgio Luís da Silva Vargas

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O presente

Fora bem recebido como tantos outros,
Afinal: cavalo dado não se olha os dentes!
Posicionei-o num canto da sala reduzida.
Ocupava muito espaço.
Nunca questionei sua utilidade.
Vez por outra era espanado, igual a qualquer outro móvel da casa.
Foi ficando ali. Apesar dos narizes torcidos das visitas.
Dia desses percebi-o meio tristonho, destoando da mobília.
Não demorou muito ele decidiu se rebelar:
Reposicionou quadros, revirou livros e por último, cagou sobre a mesinha de centro.
Vi que já era hora.
Propositadamente esqueci a porta aberta.
Hoje está lá:
Um velho elefante branco em destaque no Bric da Redenção.


Sérgio Luís da Silva Vargas

domingo, 28 de fevereiro de 2010

As más companhias.

Lá pelas tantas o diabo enfurecido esbravejou:
- Fora!

Seu filho caçula não tinha mais jeito mesmo; Era sensível demais, detestava maldades e sentia peninha de todo mundo:
- Te manda... Vai que os outros já foram!
- Mas... Papai!
- Não tem mais nem menos. Não te quero aqui.

E o guri saiu pelo mundo. Estudou, trabalhou, ganhou muito dinheiro, porém gastou quase tudo fazendo caridade.
Apesar da péssima aparência: rabo, chifres e aquele inconfundível cheiro de enxofre, tinha meiguice nos olhos. Era querido por todos. Ouvia-se pelos cantos:
- Isso é prova de que nem tudo está perdido.
- É mesmo... Bom guri.

Não tardou e lá foi ele entrar para a política. Tinha muito por fazer. Precisava trabalhar para ajudar este povo tão sofrido.
Elegeu-se deputado federal. Mudou-se para Brasília.


Ainda não está provado, mas já foi aberta uma CPI para apurar a origem do dinheiro encontrado nas cuecas do filho do capeta.


Sérgio Luís da Silva Vargas

sábado, 2 de janeiro de 2010

E se?

- Carol... banho!
- Já vou.
- Vai logo!
- Mãe?
- Ãh?
- Mãeee?
- O que é guria?
- O que tu ta lendo?
- O livro de receitas da tua vó.
- Ai, ai, ai, ai, ai! O que tu ta inventando?
- Vou fazer um bolo para o natal, ora!
- De quê?
- De chocolate.
- E por que tu não compra pronto? Lá na confeitaria tem uns maravilhosos.
- Eu prefiro fazer. Não posso? Nem tudo nesta vida tem que ser comprado.
- E se o bolo abatumar? Aquele teu forno não é dos melhores...
- Não vai abatumar... Tenho certeza disto.
- E se a farinha for carunchada? Noutro dia vovó comprou uma cheia de bichos.
- A farinha é boa. É a mesma de sempre.
- E se o fermento for velho?
- É novo, comprei hoje e também já olhei a validade.
- E se tu esquecer de pôr açúcar? Gosto de bolo bem doce.
- Não vou esquecer e lembre-se é de chocolate.
- Ta, e... se... deixa eu ver: Se o teto da cozinha desabar na tua cabeça?
- Bah, mas que guriazinha chata! E se? E se? E se o papai-noel não trouxer o teu presente Carolzinha?
- Tá, não precisa apelar também, né?!
- Mas tu fica aí... Enchendo o saco!
- É que tu cozinha mau à beça.
- Menininha, já pro banho!
- Tô indo, tô indo!

Sérgio Luís da Silva Vargas