sábado, 7 de julho de 2012

Politicamente correto


Esta onda de politicamente correto está ficando muito chata.
O brasileiro que sempre foi um "debochado por natureza" anda assustado. Está cada vez mais, com um pé atrás. Cauteloso.
Tá certo que, como dizia meu velho pai, respeito é bom e conserva os dentes. O exagero, o excesso é sempre ruim, tanto para um lado quanto para o outro. Há que se ter equilíbrio sempre.
A coisa está seguindo um rumo assustador: 
O sujeito chega no trabalho e encontra o colega gozador, que está sempre zoando dele. Aí ele faz uma piadinha básica com o dito cujo, mas o outro está de ovo virado; a sogra decidiu ir passar uns dias na casa dele (coitado), logo vem a reclamação, a briga e a decisão de colocar o agora ex-amigo na justiça: assédio moral. Putz.
Ou então o cara vem disposto a dar aquela cantada na gostosona da repartição, que há muito tempo dá em cima dele, mas a doida está de tpm. Ferrou-se: assédio sexual. Xiiii! 
Chamar de negrão um velho amigo de infância, nem pensar. Vai que...
Essa coisa bonita, descontraída, que sempre fez o brasileiro ser admirado lá fora, está se perdendo. Que pena!
Lá perto de casa tem uma quitanda onde trabalha o filho do capeta. O sujeito é muito feio. É feio demais: vesgo, não tem os dois dentes da frente e como se isto fosse pouco, o desgraçado ainda é rengo. Como seria de se esperar, os clientes e amigos o chamam de feio. É horrível, mas ele já se acostumou e atende a todos com o seu vasto sorriso banguela. Muito simpático e atencioso.
Eu nesta frescura de politicamente correto fiquei com pena da criatura e perguntei o seu nome.
Dia destes, decidi fazer a diferença, cheguei lá na quitanda e chamei-o de bonito:
-         Ô meu, eu não te dei esta intimidade. Respeito é bom e eu gosto!
Xiii! Ato falho. O nome do pobre é Benito.
É, a coisa está ficando chata mesmo!


Sérgio Luís da Silva Vargas

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Creuza Maria

Creuza era talvez a única diarista que conheço que trabalhava na matriz e na filial.
A principio era uma questão de sobrevivência, algum tempo depois passou a ser por conveniência. - Até mesmo porque a Creuza não era burra.

- Dona Eleonora! O danado trouxe para a sirigaita, um lingerie de seda, coisa muito fina.
- Que cachorro! Mas ele me paga. Pra mim trouxe este vaso brega.
- Por falar nisso, o que eu faço com ele?
- Capa!
- Não, com o vaso?
- Ah! Joga no lixo. Ou melhor, guarda na despensa, quando ele morrer vou encher de flores de plástico!
- A senhora não tem que se estressar, ele logo-logo vai acabar esquecendo aquela umazinha. A senhora é muito mais mulher que ela!
- Creuzinha você é um amor! Não sei o que seria de mim sem você. Vou te aumentar o salário.

Na filial a história não era diferente:

- Dona Beatriz o cachorro trouxe para a perua um vaso chinês da dinastia Ming.
- O que? Mas que vadio. Pra mim trouxe estes trapos que não servem nem pra pano de chão.
- A senhora tem que cobrar dele um melhor tratamento. Afinal de contas, a senhora é uma mulher muito fina. Não pode deixar isto assim, tão barato.
- Você tem razão Creuzinha, ele me paga. E por falar em pagar tem um presentinho pra você.
- Muito obrigado. Eu estava mesmo precisando.

Heraldo chegou de Brasília e não teve o descanso esperado. O mundo conspirava contra ele.
No dia seguinte lá estava ele viajando de volta.
Já a Creuza aproveitou o dinheirinho extra e tratou de fazer aquela lipo que tanto queria.
Fez e foi se hospedar na casa da matriz, mas antes ajeitou as coisas lá na filial:

- Vou ficar por lá para espionar a vaca, dona Beatriz.
- Isto mesmo Creuzinha! Faça isto por mim.
- Vou fazer, mas acho que a senhora tem que dar um duro neste mão-de-vaca. Vá pra casa de seus pais, fique por lá um mês ou dois, tenho certeza de que, quando a senhora voltar, ele vai comer bonitinho na sua mão.
- Pois sabe que você tem razão! É isto mesmo que vou fazer.

Na convalescença na casa da matriz, Creuza teve um tratamento vip, afinal de contas, amiga é pra estas horas.

- Dona Eleonora, a senhora precisa descansar um pouco. Vá para um spa, tire umas férias. Fique lindona para ele. Não desista. Lute minha querida.
- Pois sabe que você tem razão. Vou aproveitar que você já se recuperou para ir para um spa.
- Faça isto que eu fico aqui cuidando da casa pra senhora. Espionando o cachorro.
- Você é um amor Creuzinha.
- A galinhona tá viajando. Vá tranqüila que ele não vai ter pra onde ir.
- Pois vou mesmo.

Todo mundo sabe que Brasília não prende ninguém.
Heraldo voltou.

- Nossa Creuzinha, como você esta gostosona!
- Você acha mesmo? Fiz uma lipo. Tirei aquela barriguinha indezejada.
- E este pircing no umbigo? Coisa de louco!
- Eu sempre quis coloca-lo, mas não tinha coragem, agora aproveitei o novo visual e radicalizei. Melhorei?
- Bota melhorar nisto!
- Gostou mesmo?
- Adorei! Vamos tomar um banho de piscina.
- Só se for agora.
Creuza Maria e Heraldo foram de mala e cuia para a capital federal.


Sérgio Luís da Silva Vargas

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sem inflação


Quando guri eu brincava com meus irmãos de venda.

Montávamos um bolichinho ali, no fundo do quintal.

Nossa moeda era as notas velhas, desvalorizadas pela inflação.

Naquela brincadeira inocente, sem perceber, íamos tendo as primeiras noções de economia.

- Seu José me dá um quilo de feijão.

- Dá mais esta amarelinha aí. Esta aqui a inflação já comeu a metade.

E assim passávamos horas vendendo pedaços de pedra, pesando areia na balança improvisada, latas sem nada dentro. Era divertido.

Meu pai agoniado com a rapidez com que seu dinheiro perdia o valor, muitas vezes nos repassava maços e maços de notas que já não compravam mais nada, para nossa a alegria e tristeza dele é claro.

Hoje vivendo num país estabilizado percebo o sofrimento do meu pai e de tantas outras pessoas que na frente da teve ouviam: “o governo vai cortar mais um zero do Cruzeiro”.

Época de incertezas. O salário era curto para um mês tão longo.

Meu pai, coitado, tinha jornada dupla. Trabalhava em dois empregos para levar sustento a casa. E era tanto gasto! Escola, livros caros, uniformes. Não tínhamos ajuda do governo, comprávamos só o suficiente para viver.

Lá em casa pelo menos tínhamos limites. O pai e a mãe estavam sempre atentos aos desperdícios.

A gurizada hoje em dia pede, tem. Está tudo muito mais fácil.

Os pais de agora já não dão mais dinheiro sem valor para seus filhos brincarem.

Pobres meninos ricos, o jeito e se divertir com o vídeo game mesmo.


Sérgio Luís da Silva Vargas

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O presente

Fora bem recebido como tantos outros,
Afinal: cavalo dado não se olha os dentes!
Posicionei-o num canto da sala reduzida.
Ocupava muito espaço.
Nunca questionei sua utilidade.
Vez por outra era espanado, igual a qualquer outro móvel da casa.
Foi ficando ali. Apesar dos narizes torcidos das visitas.
Dia desses percebi-o meio tristonho, destoando da mobília.
Não demorou muito ele decidiu se rebelar:
Reposicionou quadros, revirou livros e por último, cagou sobre a mesinha de centro.
Vi que já era hora.
Propositadamente esqueci a porta aberta.
Hoje está lá:
Um velho elefante branco em destaque no Bric da Redenção.


Sérgio Luís da Silva Vargas

domingo, 28 de fevereiro de 2010

As más companhias.

Lá pelas tantas o diabo enfurecido esbravejou:
- Fora!

Seu filho caçula não tinha mais jeito mesmo; Era sensível demais, detestava maldades e sentia peninha de todo mundo:
- Te manda... Vai que os outros já foram!
- Mas... Papai!
- Não tem mais nem menos. Não te quero aqui.

E o guri saiu pelo mundo. Estudou, trabalhou, ganhou muito dinheiro, porém gastou quase tudo fazendo caridade.
Apesar da péssima aparência: rabo, chifres e aquele inconfundível cheiro de enxofre, tinha meiguice nos olhos. Era querido por todos. Ouvia-se pelos cantos:
- Isso é prova de que nem tudo está perdido.
- É mesmo... Bom guri.

Não tardou e lá foi ele entrar para a política. Tinha muito por fazer. Precisava trabalhar para ajudar este povo tão sofrido.
Elegeu-se deputado federal. Mudou-se para Brasília.


Ainda não está provado, mas já foi aberta uma CPI para apurar a origem do dinheiro encontrado nas cuecas do filho do capeta.


Sérgio Luís da Silva Vargas

sábado, 2 de janeiro de 2010

E se?

- Carol... banho!
- Já vou.
- Vai logo!
- Mãe?
- Ãh?
- Mãeee?
- O que é guria?
- O que tu ta lendo?
- O livro de receitas da tua vó.
- Ai, ai, ai, ai, ai! O que tu ta inventando?
- Vou fazer um bolo para o natal, ora!
- De quê?
- De chocolate.
- E por que tu não compra pronto? Lá na confeitaria tem uns maravilhosos.
- Eu prefiro fazer. Não posso? Nem tudo nesta vida tem que ser comprado.
- E se o bolo abatumar? Aquele teu forno não é dos melhores...
- Não vai abatumar... Tenho certeza disto.
- E se a farinha for carunchada? Noutro dia vovó comprou uma cheia de bichos.
- A farinha é boa. É a mesma de sempre.
- E se o fermento for velho?
- É novo, comprei hoje e também já olhei a validade.
- E se tu esquecer de pôr açúcar? Gosto de bolo bem doce.
- Não vou esquecer e lembre-se é de chocolate.
- Ta, e... se... deixa eu ver: Se o teto da cozinha desabar na tua cabeça?
- Bah, mas que guriazinha chata! E se? E se? E se o papai-noel não trouxer o teu presente Carolzinha?
- Tá, não precisa apelar também, né?!
- Mas tu fica aí... Enchendo o saco!
- É que tu cozinha mau à beça.
- Menininha, já pro banho!
- Tô indo, tô indo!

Sérgio Luís da Silva Vargas

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Platônico


Sinval, desde gurizote, mora no Pau Fincado. Lá pras bandas de São Gabriel, de onde nunca arredou pé. Índio xucro barbaridade!
Dia destes numa bailanta no bolicho do Tio Néco, se engraçou por uma morena, linda por demais. Flor vermelha no cabelo e um belo vestido de chita, que saracoteava mais que potrilinha nova.
Sinval bebeu e dançou a noite inteira com a prenda. E quando já estava amanhecendo levou-a para dividir os pelegos. A guria se encantou com os carinhos do bugre e acabou ficando.
Passada uma semana, lá estava ela: Dando um toque feminino no velho rancho e preparando uma boa comida, enquanto Sinval ia para a lida campeira.
- Amigo Anselmo... Um índio pra ser feliz de verdade tem que ter uma chinoca carinhosa e bem prendada como esta que eu tenho.
- Faça bom proveito Sinval... Faça bom proveito!

Num lugar pequeno como aquele, noticia ruim se espalha mais que fumaça no vento:
- Mas bah, mano-velho! Não é que o Sinval amazeou-se com uma tal “mulher de penca”.
- Muito linda. Não fosse um travesti!
- Será que ele ainda não se deu conta compadre?
- Um bugre daqueles? Criados naqueles cafundós? Certamente não sabe que existe tanta sem-vergonhice. Pra ele vestiu saia é mulher!
- Temos que lhe contar a verdade.
- Eu é que não me atrevo!
- Nem eu.
- Já sei. Vamos telefonar para o Bado.
- O irmão que mora lá em Santa Maria?
- Com certeza ele saberá como proceder.

Nem bem amanheceu, lá estava o Bado batendo na porta do rancho:
- Boenas! Cadê meu irmão?
- Saiu cedinho para a lida.
- Pois te manda. Eu vou contar tudo pra ele, e conhecendo-o como eu conheço, acho que ele vai te matar.
Não precisou falar duas vezes e lá se foi a bichinha campo à fora, feito uma gazela. Desaparecendo neste mundão de meu Deus.

****

Nas rodas de chimarrão ninguém se atreve a fazer chacota do pobre Sinval. Até mesmo porque ele é homem de impor respeito:
- Bah tchê... Que vergonha! Quando eu encontrar aquele putinho por aí, quero estar com o meu facão bem afiado. Hei de cortar-lhe o couro em tirinhas bem finas para fazer um barbicacho!

Mas quando a noite chega e a lua inunda o rancho, Sinval chora de saudades de sua prenda.
Sérgio Luís da Silva Vargas