quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O lixão

Histórias de trabalho 2008 (15ª edição) Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre


Um menino garimpa o lixão.
Latas, plásticos, papéis, vidros e tudo aquilo que alguém não quis mais, para tantos vale muito.
Arqueado, o menino vai catando o que pode carregar. Sai dali o seu sustento e o de sua família. Revira o lixo em busca de algo que possa vender.
Vida dura. O lixo fede.
O menino sonha com dias melhores. Sonha com a escola. Adora a leitura. Lê tudo o que recolhe; dos rótulos das latas aos jornais imundos. Aprendeu a ler ali mesmo com um velho de barbas brancas e pegou gosto. Não teve tempo de estudar. A vida é dura. Ou estuda ou trabalha. E quem é que vai levar comida para os irmãos mais novos?
São sete ao todo. Um de cada pai. Porém, sabe-se lá por onde eles andam. O último que ali esteve, só quis saber de beber. Não durou muito. Morreu de cirrose.
A mãe do menino vive drogada. Quando está “limpa” até o ajuda, mas isto é difícil.
A vida é dura. O lixo fede. Seus irmãos têm fome.
O menino já recebeu convite para ser vapor, mas o velho de barbas brancas, que já esteve preso, disse ao menino o quanto é bom estar livre. Um homem de verdade tem que andar de cabeça erguida. O menino preferiu a dureza do lixo.
Assim como ele há tantos outros; pais de famílias, mulheres grávidas, meninas, meninos. A concorrência é grande no lixão. Um caminhão descarrega. Vem outro e mais outro. E a todo instante a correria. Tem que ser rápido.
A vida é dura. O lixo fede. Seus irmãos têm fome. Quem não corre, não come.
O menino pensa no desperdício das pessoas. Tanta coisa indo para o lixo. Semana passada encontrou um sapato quase novo que serviu para o irmão Tião.
Duas mulheres, uma gorda e outra mais baixa, se atracaram a tapas por causa de uma sombrinha. O menino sorriu. O lixão tem destas coisas.
A senhora loura há dias não aparecia, coitada, seu filho caçula morreu de leptospirose. – É! O lixo é desumano – Ele mesmo já esteve tantas vezes doente.
O menino reza. Pede pelos irmãos, pela mãe, pois ele sabe que ela é uma pessoa boa, mas que não tem forças para se libertar do vício. Pede por todos que ali buscam seu sustento.
Dia destes, num saco com cascas de batatas e frutas podres, o menino encontrou um livro de poesias. Quem poderia ter cometido tal desatino? Um livro destes! Poemas falando de um mundo dourado. E na sombra da figueira, entre um bando de urubus e o lixo, o menino sonha. Apesar de tudo, a vida é bela.



Sérgio Luís da Silva Vargas