quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Creuza Maria

Creuza era talvez a única diarista que conheço que trabalhava na matriz e na filial.
A principio era uma questão de sobrevivência, algum tempo depois passou a ser por conveniência. - Até mesmo porque a Creuza não era burra.

- Dona Eleonora! O danado trouxe para a sirigaita, um lingerie de seda, coisa muito fina.
- Que cachorro! Mas ele me paga. Pra mim trouxe este vaso brega.
- Por falar nisso, o que eu faço com ele?
- Capa!
- Não, com o vaso?
- Ah! Joga no lixo. Ou melhor, guarda na despensa, quando ele morrer vou encher de flores de plástico!
- A senhora não tem que se estressar, ele logo-logo vai acabar esquecendo aquela umazinha. A senhora é muito mais mulher que ela!
- Creuzinha você é um amor! Não sei o que seria de mim sem você. Vou te aumentar o salário.

Na filial a história não era diferente:

- Dona Beatriz o cachorro trouxe para a perua um vaso chinês da dinastia Ming.
- O que? Mas que vadio. Pra mim trouxe estes trapos que não servem nem pra pano de chão.
- A senhora tem que cobrar dele um melhor tratamento. Afinal de contas, a senhora é uma mulher muito fina. Não pode deixar isto assim, tão barato.
- Você tem razão Creuzinha, ele me paga. E por falar em pagar tem um presentinho pra você.
- Muito obrigado. Eu estava mesmo precisando.

Heraldo chegou de Brasília e não teve o descanso esperado. O mundo conspirava contra ele.
No dia seguinte lá estava ele viajando de volta.
Já a Creuza aproveitou o dinheirinho extra e tratou de fazer aquela lipo que tanto queria.
Fez e foi se hospedar na casa da matriz, mas antes ajeitou as coisas lá na filial:

- Vou ficar por lá para espionar a vaca, dona Beatriz.
- Isto mesmo Creuzinha! Faça isto por mim.
- Vou fazer, mas acho que a senhora tem que dar um duro neste mão-de-vaca. Vá pra casa de seus pais, fique por lá um mês ou dois, tenho certeza de que, quando a senhora voltar, ele vai comer bonitinho na sua mão.
- Pois sabe que você tem razão! É isto mesmo que vou fazer.

Na convalescença na casa da matriz, Creuza teve um tratamento vip, afinal de contas, amiga é pra estas horas.

- Dona Eleonora, a senhora precisa descansar um pouco. Vá para um spa, tire umas férias. Fique lindona para ele. Não desista. Lute minha querida.
- Pois sabe que você tem razão. Vou aproveitar que você já se recuperou para ir para um spa.
- Faça isto que eu fico aqui cuidando da casa pra senhora. Espionando o cachorro.
- Você é um amor Creuzinha.
- A galinhona tá viajando. Vá tranqüila que ele não vai ter pra onde ir.
- Pois vou mesmo.

Todo mundo sabe que Brasília não prende ninguém.
Heraldo voltou.

- Nossa Creuzinha, como você esta gostosona!
- Você acha mesmo? Fiz uma lipo. Tirei aquela barriguinha indezejada.
- E este pircing no umbigo? Coisa de louco!
- Eu sempre quis coloca-lo, mas não tinha coragem, agora aproveitei o novo visual e radicalizei. Melhorei?
- Bota melhorar nisto!
- Gostou mesmo?
- Adorei! Vamos tomar um banho de piscina.
- Só se for agora.
Creuza Maria e Heraldo foram de mala e cuia para a capital federal.


Sérgio Luís da Silva Vargas