quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sem inflação


Quando guri eu brincava com meus irmãos de venda.

Montávamos um bolichinho ali, no fundo do quintal.

Nossa moeda era as notas velhas, desvalorizadas pela inflação.

Naquela brincadeira inocente, sem perceber, íamos tendo as primeiras noções de economia.

- Seu José me dá um quilo de feijão.

- Dá mais esta amarelinha aí. Esta aqui a inflação já comeu a metade.

E assim passávamos horas vendendo pedaços de pedra, pesando areia na balança improvisada, latas sem nada dentro. Era divertido.

Meu pai agoniado com a rapidez com que seu dinheiro perdia o valor, muitas vezes nos repassava maços e maços de notas que já não compravam mais nada, para nossa a alegria e tristeza dele é claro.

Hoje vivendo num país estabilizado percebo o sofrimento do meu pai e de tantas outras pessoas que na frente da teve ouviam: “o governo vai cortar mais um zero do Cruzeiro”.

Época de incertezas. O salário era curto para um mês tão longo.

Meu pai, coitado, tinha jornada dupla. Trabalhava em dois empregos para levar sustento a casa. E era tanto gasto! Escola, livros caros, uniformes. Não tínhamos ajuda do governo, comprávamos só o suficiente para viver.

Lá em casa pelo menos tínhamos limites. O pai e a mãe estavam sempre atentos aos desperdícios.

A gurizada hoje em dia pede, tem. Está tudo muito mais fácil.

Os pais de agora já não dão mais dinheiro sem valor para seus filhos brincarem.

Pobres meninos ricos, o jeito e se divertir com o vídeo game mesmo.


Sérgio Luís da Silva Vargas

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