quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Platônico


Sinval, desde gurizote, mora no Pau Fincado. Lá pras bandas de São Gabriel, de onde nunca arredou pé. Índio xucro barbaridade!
Dia destes numa bailanta no bolicho do Tio Néco, se engraçou por uma morena, linda por demais. Flor vermelha no cabelo e um belo vestido de chita, que saracoteava mais que potrilinha nova.
Sinval bebeu e dançou a noite inteira com a prenda. E quando já estava amanhecendo levou-a para dividir os pelegos. A guria se encantou com os carinhos do bugre e acabou ficando.
Passada uma semana, lá estava ela: Dando um toque feminino no velho rancho e preparando uma boa comida, enquanto Sinval ia para a lida campeira.
- Amigo Anselmo... Um índio pra ser feliz de verdade tem que ter uma chinoca carinhosa e bem prendada como esta que eu tenho.
- Faça bom proveito Sinval... Faça bom proveito!

Num lugar pequeno como aquele, noticia ruim se espalha mais que fumaça no vento:
- Mas bah, mano-velho! Não é que o Sinval amazeou-se com uma tal “mulher de penca”.
- Muito linda. Não fosse um travesti!
- Será que ele ainda não se deu conta compadre?
- Um bugre daqueles? Criados naqueles cafundós? Certamente não sabe que existe tanta sem-vergonhice. Pra ele vestiu saia é mulher!
- Temos que lhe contar a verdade.
- Eu é que não me atrevo!
- Nem eu.
- Já sei. Vamos telefonar para o Bado.
- O irmão que mora lá em Santa Maria?
- Com certeza ele saberá como proceder.

Nem bem amanheceu, lá estava o Bado batendo na porta do rancho:
- Boenas! Cadê meu irmão?
- Saiu cedinho para a lida.
- Pois te manda. Eu vou contar tudo pra ele, e conhecendo-o como eu conheço, acho que ele vai te matar.
Não precisou falar duas vezes e lá se foi a bichinha campo à fora, feito uma gazela. Desaparecendo neste mundão de meu Deus.

****

Nas rodas de chimarrão ninguém se atreve a fazer chacota do pobre Sinval. Até mesmo porque ele é homem de impor respeito:
- Bah tchê... Que vergonha! Quando eu encontrar aquele putinho por aí, quero estar com o meu facão bem afiado. Hei de cortar-lhe o couro em tirinhas bem finas para fazer um barbicacho!

Mas quando a noite chega e a lua inunda o rancho, Sinval chora de saudades de sua prenda.
Sérgio Luís da Silva Vargas

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