domingo, 23 de agosto de 2009

Voyeur

Mais uma vez, Rodrigo apontou sua luneta para a janela do prédio lá adiante.
Há muito tempo é assim: Ela chega acompanhada, liga a luz e tira a roupa, sob o olhar extasiado do visitante. E são tantos. Homens novos, velhos, com barba, loiros, morenos. Homens de todos os tipos.
Suélen é linda. Loira de cabelos compridos e lisos como a seda. Pernas bem torneadas. Corpo esguio. Bundinha empinada. E aqueles seios então? Frutos maduros prontos para serem colhidos. Suelen é perfeita. Ou será que se chama Carla? Patrícia talvez? É... Suelen é melhor. Se parece mais com ela.
No quarto, pelo que ele pode ver, tem uma cama de casal com lençóis muito brancos, um ventilador no teto e num canto, uma cômoda, sobre a qual descansa um porta-retrato com a foto de uma criança e livros, muitos livros.
Rodrigo observa atento, aqueles corpos ansiosos, engalfinhando-se sobre a cama. Suelem é carinhosa. Do que será que falam? Suelem ouve e dá risadas. Ela fica mais linda ainda quando ri. Depois a luz se apaga e Rodrigo vai deitar. Amanhã é outro dia e a escola o espera. Quase sempre é assim, fica rolando na cama e só consegue dormir depois de ir ao banheiro.
- Ah, Suelem... Você me deixa louco!
Quinta-feira. Rodrigo observava as estrelas quando de repente a luz do quarto de Suelem se acendeu. Automaticamente a luneta foi desviada para lá.
- Veja só, ela está melhorando o perfil dos seus clientes. Está mais seletiva a safadinha.
O sujeito que lá estava usava um terno azul-marinho bem alinhado. Parecia ser muito mais velho do que ela. Tinha os cabelos grisalhos.
Suelem serviu-lhe um uísque, depois, pegou na cômoda uma toalha e foi tomar banho. O homem aproveitou que estava sozinho para revirar a bolsa dela. Quando voltou ao quarto, ele começou a empurra-la.
- Epa! Parecem estar discutindo.
Rodrigo percebeu então que o homem a estrangulava. Ficou apavorado. Tentou gritar, mas apenas um sussurro foi o que se ouviu. Na noite fria, o silêncio imperava. A luz se apagou.
O garoto ficou pensativo:
- O que devo fazer? Ligo para a polícia? Não! Como eu poderia explicar tudo isto. Falar para os meus pais? Também não. Meu pai certamente diria que não devo me meter na vida dos outros e minha mãe então, iria encher o meu saco, achando que ando me envolvendo com prostitutas. Melhor ficar calado e observar se Suelem reaparece amanhã.
Na sexta-feira a luz do quarto da garota não se acendeu. Rodrigo ficou preocupado e decidiu que no outro dia, bem cedo, iria ao prédio dela ver o que havia acontecido.
Acordou, bebeu um gole de café e saiu correndo, sob protestos de sua mãe. Chegando lá, avistou o rabecão do iml. Ficou nervoso.
- O que houve aí? Perguntou a um policial.
- Mataram uma garota de programas
- A Suelem?
- Você a conhecia?
- Sim... Quer dizer, não! É que...
- Conhecia ou não conhecia?
- Bem... É que...
- Espera um pouco aí guri. Vou chamar o delegado. – Doutor!

Rodrigo estremeceu. Ali estava ele, o sujeito grisalho de terno azul-marinho.

Sérgio Luis da Silva Vargas

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